sábado, 20 de março de 2010

AO MEU PAI

Recordo-o ainda. Ele saiu, em um dia de sol, para viajar e nunca mais retornou para nossos olhos físicos.
Quando o trouxeram, era somente um corpo dentro de um caixão. Lacrado, ao demais, tendo em vista os dias passados desde a sua morte.
Meu pai era um homem alegre. Gostava de música, de dança, de estar com amigos, conversar, contar casos.
E ele os tinha às centenas. Toda vez que retornava de viagem, os filhos, éramos três os menores, nos reuníamos em torno da mesa, na cozinha ampla, para ouvi-lo.
Ele contava casos de forma pausada. Ia descrevendo as cenas, uma a uma, reproduzia os diálogos.
Por vezes, meu irmão e eu, mais impacientes, o interrompíamos: E daí, o que aconteceu? Conta logo.
Ele sorria mostrando seus dentes curtos, bem moldados. E continuava com a mesma calma, até o desfecho da história.
Tê-lo em casa era muito bom e significava que um de nós iria dormir na cama dos pais.
Por vezes, nossa mãe nos dizia que desejava ficar a sós com ele. Mas, mal despertava a madrugada, quem primeiro acordasse, corria para o quarto e se enfiava entre os dois.
Ele acordava e brincava connosco, fazendo cócegas, jogando travesseiro. Era uma festa!
Meu pai! Quantas saudades! Ele não era letrado. Desde bem jovem conhecera o trabalho duro
Constituíra família cedo e os cinco filhos lhe exigiam que desse o máximo de si.
Insistia que precisávamos estudar. E estudar muito. Com grande custo, pagou para cada um de nós o ensino fundamental, em escola particular.
Escolheu a melhor escola da cidade. Pagou cursos de piano, acordeão, violino para minha irmã, que cedo entrou para o mundo da música.
Meu irmão e eu não chegamos a tanto, mas fomos brindados com o que ele tinha de mais precioso.
Ensinou-nos a honestidade, ensinou-nos que melhor era ser enganado do que enganar.

Viveu no tempo em que a palavra de um homem era documento mais válido do que nota promissória, duplicata ou qualquer título financeiro.
Legou-nos um nome honrado e disse-nos que o dignificássemos, ao longo de nossa vida.
Olhava para mim, com orgulho e dizia: Um dia você será uma pessoa muito importante!
hoje, quando viajo pelas estradas, muitas delas velhas conhecidas de meu pai, eu o recordo.
Será que ele sabia que um dia eu seria alguém que viajaria, esclarecendo pessoas, ofertando cursos?
Ele não conheceu todos os netos. Partiu para a Espiritualidade, em anos jovens, deixando-nos um grande silêncio na alma.
Em homenagem a ele, em nossos aniversários, nas festas de Natal e Ano Novo, nos encontramos.
Rimos, ouvimos música, dançamos. Porque ele nos ensinou a sermos assim.
A vida é dura, mas nós a podemos adoçar, se quisermos. - É o que dizia.
Meu pai, meu mestre, onde estejas, Deus te guarde. Especialmente nesta época em que os pais são recordados pelos filhos, que os brindam com presentes
Meus irmãos e eu te brindamos com a prece da nossa gratidão: Obrigado por nos terdes dado a vida.
Obrigado por nos terdes ensinado a bem vivê-la.

10 comentários:

Pérola disse...

Nossa minha amiga,que postagem maravilhosa q dedicastes ao teu pai!!!
Fico imaginando a saudade tamanha q deve estar sentindo.
Ñ se aflija, em algum lugar ele olha por ti.
Eu adorei.
Obrigado pela visita no meu blog,gostei muito.
Estou te seguindo só assim fica mais fácil de vim visita-la e apreciar sua postagens.
Um beijo e uma linda tarde.

Espaço do João disse...

Meus caros.
Possívelmente foi a 1ª vez que passaram pelo meu espaço.Fico muito grato e, sabendo que são pais , mais me comove. A experiência que tive de vivência com meu pai , foi muito curta. Corriam os anos de sessenta, a tropa chamava-me. Meu pai dizia-me:- Filho, foje, pois se fores à tropa nunca mais te verei. Tal dito, tal acontecido,fui para a tropa e jamais vi o meu querido pai. Enquanto prestava o serviço militar obrigatório, meu pai desceu à terra e, nem morto consegui despedir-me dele. A distância era grande e, as formalidades não permitiam ausências.Que descance em PAZ, eu não me esquecerei dele e, um dia voltaremos a juntar-nos. Um abraço e muitas felicidades. Apareça sempre, pois terá a minha resposta.

direitinho disse...

Maravilhosa narrativa, mas mais ainda por essa transmissão dos valores da vida e de uma sociedade de respeito e de palavra.
Revi-me também nesta história.
Obrigado pela partilha.

Baila sem peso disse...

Essas palavras são baladas do coração!
Lindo como o amor pode ser condão
que nos afaga e embeleza a razão...
no entretanto ele não partiu, não
porque viverá sempre junto a ti
isso se sente a cada dizer aqui!

Um beijinho e bom domingo
e a alegria no ar, então!

Sonia Pallone disse...

Vi seu recadinho lá no Solidão de Alma e vim no seu rastro conhecer seu canto. Adorei. Seu espaço tem poesia da melhor qualidade, beijos, volte sempre.

MARIA L. BÓZOLI disse...

Olá........Bom diaaaaaaaaa
Maravilhosa postagem.

Agradeço sua visita.

Um abençoado Domingo com muita poesia.

poetaeusou . . . disse...

*
senti o teu post,
,
bem-hajas,
,
brisas serenas, deixo,
,
*

Eduardo Aleixo disse...

Gostei muito das suas palavras, evocativas da vida do seu pai. São palavras de muita ternura. Lembra cenas que também se passaram na minha infância, por exemplo, aquela de, na madrugada, eu correr para a cama dos meus pais e meter-me no meio deles. E mais coisas, como o esforço deles para nos darem tudo do melhor. E gostei muito tsmbém do que descreve quando o seu pai regressa e vocês sequiosos de o ouvirem nas histórias que ele sempre contava. Outra coisa semelhante na minha vida é quando eu percorro os caminhos do alentejo, por onde meu pai sempre andou no seu carro de aluguer com que ganhava o pão. Ainda hoje, em silêncio, ao percorrer esses caminhos, bem o lembro e o vejo, como se estivesse vivo. Pronto, fico-me por aqui na prosa. Obrigado pela partilha e pela vossa visita, que assim retribuo. Um abraço

Pérola disse...

Beijos de boa noite minha linda.

Gerana Damulakis disse...

Linda homenagem. De chorar, emoção pura que entende quem passou por algo assim semelhante.